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quinta-feira, 20 de julho de 2017

As tuas garras



As tuas garras
sempre temeram os desígnios predatórios
que a juba leonina dos meus passos te ditava.
Contudo, o meu olhar mascarado de felino
apenas procurava o teu rasto
[de odores de leoa impregnado]
e lamber as feridas que açoitavam o teu rosto.

Apesar disso,
viajámos na direção oposta do disfarce e,
sem um arranhão,
fomos abrindo gargantas e rios
na serrania de espinhos do teu dorso,
que ainda sangrava das travessias de brumas.

Sorvemos ao sol
o fel de opressões envelhecidas,
refreámos poemas
em rimas que tememos entoar
e comemos o choro amanteigado
em forma de bolo com velas
a adocicar o grito que a tua garganta calava.

Ainda ferida,
continuas leoa briosa do teu território,
mas deixas-me entrar
sem mostrares as tuas garras:
cortaste-as e pintaste-as, porque acreditas
que o meu cheiro é miscível com o teu.



Jaime Portela


quinta-feira, 13 de julho de 2017

Na tua boca a escaldar



Quero abrigar as verdades
no teu olhar maturadas,
colhê-las, guardá-las todas a jeito
sempre à mão de semear.
Quero ver luas, seguras,
a fitar estrelas polares,
pintá-las, espalhá-las à medida
da tua face ao luar.
Quero aquecer os teus pés,
sentir Invernos de chuva,
preguiçosa, a correr pelas janelas
sem vontade de acabar.
Quero ouvir cantar o galo
a despertar-nos vaidoso
todas as manhãs de sol
no teu sorriso sem trevas.
Também quero, insaciado,
ceifar o trigo espigado
no equinócio das palavras,
maduras, na tua boca a escaldar.



Jaime Portela


quinta-feira, 6 de julho de 2017

Podes encostar a cabeça no meu ombro

Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo,
não se transforme também em monstro.
E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo,
o abismo também olha para dentro de ti.
Friedrich Nietzsche




Nunca foi meu costume
cair em abismo
ou depressão,
mesmo que isso represente
um degrau sem altura que se meça.
Mas se alguém resolvesse
dar um tiro na certeza
[por engano]
e prenunciasse
[qual profeta
que a poemas recorresse]
estar errada a minha crença,
eu faria uma comédia
no mais sério desatino,
como se rir
fosse magia que mudasse
o que é mesmo uma tragédia.
Por isso,
podes encostar a cabeça no meu ombro,
podes chorar,
podes rir,
com ou sem comédias e tragédias
[não serei contagiado]
como se eu fosse um trampolim
para saltares
os degraus que te afundaste.


Jaime Portela

quinta-feira, 29 de junho de 2017

O princípio do fim começa agora




Nascem lendas, morrem mitos,
rasgam-se mapas vivos
com as naus que timonamos
a desbravar a existência
com mãos-cheias ou vazias de bom-senso.
Salgamos a loucura
num mar de humores desbragados.

Sobrevivemos a mares exaltados
ou flutuamos a navegar
em lagos chãos de águas frescas
ou inquinadas, muitas vezes,
por outras naus desumanas.
Somos náufragos do tempo
onde se quebram certezas.

Em qualquer caso,
fiquemos preparados,
porque empurrado por ventos de feição
ou desnorteado por bússolas cegas,
o princípio do fim começa agora.



Jaime Portela

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Era um fogo sem margens









Era um fogo que vinha,
não vinha, voava,
saltava no vento
e surgia do nada.
Que ardia e se via
na beira da casa
e na berma da estrada.
Que rodopiava
por tudo e por nada
que não crepitava,
estalava.
Era um fogo a lavrar
no que havia a limpar
à porta das portas
e na cama das matas,
desordenadas.
Que tudo crestava
por onde passava
e até as gargantas
fumadas queimava.
Era um fogo sem margens,
sem peias nem meios,
com dúzias de vidas ceifadas.
Era um fogo indecente,
incomplacente,
onde só as crianças
foram inocentes.


Jaime Portela

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Estás tão longe de mim



Estás tão longe de mim
que viajo até à nobreza do teu decoro de velas
suspenso no feixe de luz que te nasce do olhar,
porque o guardo comigo para voarmos bem perto.
Quando chegas,
é como rosa em botão que te descubro,
ainda fechada,
solitária e pronta a explodir
em mil sóis de pétalas que me abraçam em delírio.
Peça por peça,
vou-te mostrando no brilho que te inunda
as pedras preciosas
que me dás infatigável do teu ser ao desbarato.
Eterna menina em flor,
musa traquina de afetos, estás tão longe,
nas brumas…
mas tão perto de mim e da luz
que posso beijar os teus dedos, os teus sonhos,
numa dança desfragmentada de lembranças,
corpo a corpo, onde te mimo e te amo.


Jaime Portela


quinta-feira, 8 de junho de 2017

Esta noite



Esta noite
quero demorar-te em mim,
quero ficar em ti, provar-te
e ser saboreado na carne da alma,
no magnetismo indizível
que a distância não embarga.

Esta noite
quero fazer de ti o meu canto,
de mim o teu encanto,
quero tactear os teus sinais,
respirar à luz do fogo
que ateado em duplicado
dissolva a nossa ausência.

Esta noite
quero tocar em ti resplandecente,
quero desarrumar-te,
sorver o borbulhar do teu corpo
e verter champanhe bruto
na tua taça de cristal.

Esta noite
quero sonhar contigo,
quero brindar-me inteiro
no teu corpo vivo em desejo.


Jaime Portela