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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Estamos doentes


Basta que respires e eu naufrago
na recidiva embriagada
dos teus braços,
em recaídas crónicas de saudade
a fundir escolhos
fracturados na urgência
do exacto impulso dos sentidos.
 
Quando me tocas,
sou tão frágil como a cama
em que medimos
o ardor obstinado que nos queima,
onde abrimos o corpo
em serenatas de cuidados intensivos.
 
Estamos doentes,
mas atiramos pela janela
os remédios que negamos ingerir.
 
É recíproca e nua, esta
epidemia que nos veste e contagia.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Cravos vermelhos


Quando me atrevo,
levanto-me da cadeira-de-rodas
e corro a ver os teus retratos
em curtas-metragens de guiões
decorados à luz dos porões da memória.
Nesses momentos,
conforto-me com o desfilar dos teus sorrisos
[ainda que em passerelles
de filmes ruidosos de saudade],
reúno os bocadinhos de ti,
coloco o mar ao fundo
em louca agitação contra a falésia
e distingo com luz a verdade do teu vulto.
Ouço um andamento triunfal,
entras em cena e, seduzidos,
trocamos tesouros de rotas abrigadas
nas dobras das nossas cartas de navegantes
para afogar pudores declarados
nos zimbórios de outros olhos.
E é com cravos vermelhos nas mãos
que ficamos cegos às cadeiras-de-rodas
que teimam no proscénio.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Dança de pássaros


Nos teus olhos dançam pássaros
que me fazem voar em alvoroço.
Desses teus pássaros,
que não sei como nasceram fogosos
nem por que ainda não morreram,
sinto o apelo inadiável
que tentas demorar com a boca,
a mesma que me cala com fogo
no êxtase de abraços saídos do peito.
Desses voos, não sei como falar
da agitação da viagem,
da inquietação da chegada,
nem do afogo da partida.
Resta-me a dança,
a mesma que nos embala
na melopeia do sonho,
que nos enlouquece
na vertigem dos corpos,
que me atordoa no remanso
das tuas ancas de gosto buliçoso.
Porque é na dança que eu percebo
o canto dos teus pássaros,
querendo-os vivos,
e que tu abarcas os meus voos,
querendo-os com os teus pássaros.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Os poemas podem ser


Os poemas podem ser projécteis
que rebentam num peito libertário
ou tormentos que perfuram a pele
como ferrões de abelhas irritadas.
 
Podem ser ideias com asas
que vivas tomam posse do papel
onde pousarão outros olhos
para tecer o mel ou o fel
nas entretelas dos versos.
 
Podem ser luas cheias ou nuas
que afagam como penas
ou agridem como cornos
o juízo hospedeiro do leitor.
 
Os poemas podem ser pedras desmedidas,
setas certeiras
ou rios a cair em cachoeiras.
 
Podem ser até
barulhentos destemperos de enxurradas,
burburinhos de sombras perseguindo a luz
ou a entrega às forças
do desejo colado à carne das fraquezas.
 
Os poemas podem ser tudo,
menos charcos açudados de vazios,
porque o canto
ficaria inquinado de palavras.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

O eco do silêncio


Fora da porta,
as sombras carregam a lua
que engole a noite de mansinho.
As janelas,
temporariamente fechadas sobre nós,
desviam a claridade alheia
que não entra e não polui
a luz inscrita no teu corpo inesgotável,
porque em nós se abrem chaves
na inevitabilidade do fogo.
 
O teu colo nu é fascinação
que repousa na correria
das minhas asas por ti,
na minha prisão em ti desabotoada,
na procura da tua inebriada inocência,
das tuas mãos,
da tua boca,
do teu corpo,
na descoberta de murmúrios em cascata,
no sufoco de gritos em estremeções.
 
E repetiremos tudo até ser dia,
porque havemos de compreender
o eco do silêncio de olhos nos olhos.
 
 
Jaime Portela

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Navegar é preciso *


Vimos de longe, de muito longe,
com as mentes perfumadas pelos dilúvios
que sorvemos com o hálito na pele,
abençoados por fragrâncias
de maresias que nos alimentaram
em rotas de ventos risonhos.
 
Vimos de longe, de muito longe,
a bordo de uma nau
com a linha de água submersa pela carga
dos contentores da fortuna
estivada nos porões, tesouro que carregámos
com as retinas cheias de nós.
 
Vimos de longe, de muito longe,
com limo e ostras na rabada
de cruzar um mar convulso de vozes
e algas sem norte na quilha da nossa firmeza,
à vela de um farol
lastrado na paz dos sentidos do olhar.
 
Vamos p’ra longe, p’ra muito longe,
a navegar no fado em que nós cremos,
dobraremos os cabos
das tormentas de nós mesmos.

* Título de um poema de Fernando Pessoa
 
Jaime Portela

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

A seiva que nos percorre


Imprimes, na tua pele,
o pranto que leve se afoga na claridade
embriagada às nossas mãos concubinas,
porque não sabemos escrever
cantos de pétalas caídas na areia.
 
Sobre os teus muros,
derramas uma chuva de lágrimas
que se apagam no sol em que ardemos,
porque transborda no teu olhar
o verde transparente
de grinaldas em claros desejos costuradas.
 
Com sombras, moldas o rodapé do teu sonho
[porventura animada por chapéus de dois bicos],
mas logo sublimadas na luz dos beijos
que ainda não demos,
porque despimos qualquer mágoa verdadeira
que, derrotada, se torna moribunda.
 
Porque a seiva que nos percorre
é vinho destilado,
já que o nosso delito arde
num cadinho de cinza, justa e fecunda.
 
Jaime Portela