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quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O pôr-do-sol rubro e cálido



O pôr-do-sol rubro e cálido
a querer incinerar as lágrimas
que a chegada instila na garganta.
O cabelo solto de areia a viajar
atado no embaraço de lençóis
à espera de nós enlaçados.
A chama a dançar trémula
até que a voracidade da pele
aviste a rebelião das estrelas.
As pernas boquiabertas
a sufocarem o silêncio
e a adelgaçarem as unhas despidas
nas costas transpiradas.
O navio a repetir o grito inquieto
do farol à entrada do teu porto,
sem brumas, sem nevoeiros.
O vazio calcetado de tédio
a desmantelar-se ao sabor
do gozo renovado das marés.
Na garganta, o rouco sim,
a tresmalhar-se pela boca
entreaberta e perdida.
Na fronte, as rugas da recusa
âs cicatrizes perpétuas
da tortura inevitável da partida.



Jaime Portela


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Do teu peito ainda partido



Do teu peito ainda partido,
restaurado pela seiva
de beijos concertados,
sopros balsâmicos que te despertaram
do sonho já esgotado,
brotaram rosas naturais.

Das tuas mãos, ainda trémulas,
determinadas a espantar as nuvens
e a acordar a modorra
do fim de tarde que te acomete
como um apelo sem vida,
desabrocharam carícias verdadeiras.

Gosto de ti,
pelas rosas que amotinam o teu peito
e pelas mãos de luz arrebatadas
que em noites de sol partilhamos.



Jaime Portela


quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Epopeias



Muito antes do tempo que hoje é o nosso,
as naus fizeram-se ao largo, temerárias,
por caminhos dúbios à descoberta,
iluminadas pelo sextante das estrelas
de um céu de azul nem sempre forrado.

Foram os tempos dos vírus, dos piratas,
da peste, da malária e do escorbuto,
na procela de façanhas
armadas à força e à vela de fidalgos
a navegar sem remorsos,
a cavalo e a bordo da servidão infligida
no carcomido corpo de escravos.

Por toda a parte mais tarde conhecida,
eis que uma nova epopeia se levanta
num corrupio ainda mais dominador,
onde a distância se condensa
e astrolábios e bússolas são inúteis
nos avisos virtuais aos navegantes:
“- Introduza o seu nome e a sua senha”.

Frotas de todo o mundo, em liberdade,
a partilhar o mesmo mar sem fim à vista,
miríades de embarcações embandeiradas
na imensidão de toda a cor e toda a raça
na arte e no engenho do ver e do mostrar,
ainda que haja em cada rota
um Adamastor ou um pirata acantonado
a espalhar o vírus das tormentas.

Com espantos sempre novos, desusados,
a reinventar o fogo-de-santelmo remoçado,
é nos porões de uma aldeia infinita e global,
depois do imperativo
“- Introduza o seu nome e a sua senha”,
que são carregadas todas as vontades
em diluviana profusão de navegantes.

Mas sem ventos de feição,
tudo é silenciado e naufragamos sem velas
que nos façam bolinar:
 “- A senha que introduziu está incorreta.
Digite a sua senha novamente”.



Jaime Portela


quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Campinos de touros distraídos



Na ternura da lezíria,
ao pôr-do-sol mais dourada,
somos campinos de um paraíso
feito de planícies de touros distraídos.
Caminhamos descalços
sobre arrozais de beijos
com vontade de atirar pedras
ao rio de gaivotas previsíveis.
Olhamos lerdos
o mar de pardais
a desenhar azinheiras adormecidas
no sonho cansado da lezíria.
Mas há quem diga
que trazemos a primavera
no corpo e na rosa
que queremos florir.
E que transportamos no sangue
o vinho maduro onde o nosso desejo
se quer rever e brindar.
Mas talvez sejamos apenas
campinos de touros distraídos.



Jaime Portela


quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Como num tango fandango



Como num tango fandango
do Carlos Gardel,
somos personagens fatais
a interpretar o poder
da sorte  por conquistar,
onde ensaiamos a crença
em violinos de cismas.

Como num enredo
do Martinho da Vila,
somos a plebe a sambar
num coração malandro
a enganar as pedras
indigestas dos caminhos
em pandeiretas de risos.

A tempo inteiro vadios
como num fado da Amália,
somos um povo castiço
que lava no rio a cantar
as guitarras da saudade
da vida que não levou
e que teima em não mudar.

Malditos e venturosos,
revoltados e cobardes
em estranha forma de vida,
somos areia movediça
em terra firme espalhada,
o tudo e o nada, indecisos,
de uma pátria adiada.



Jaime Portela


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O vento lá fora numa fona



O vento lá fora, numa fona,
a tentar revolver o avesso das pessoas…

E nós cá dentro
num poema de dois corpos,
a serenar a desordem crescente
da cronologia das palavras
que disparamos às cegas,
emaranhadas nos beijos
arrebatados pelo vendaval
dos vasos comunicantes do sangue.

A chuva lá fora, desalmada,
a tentar desabotoar a calçada…

E nós cá dentro
a relaxar nas lareiras do corpo,
a enxugar palavras revoltas
nas gavetas orvalhadas pelas mãos,
a desembrulhar verbos no verso
das pernas da provocação
e a abrir enxurradas no caos
das cabeças sem distância.

O vento e a chuva cá dentro,
amainados,
num abraço tântrico a crescer,
onde só os olhos se mexem
a ouvir murmúrios nas promessas
de ventos com chuva de mel.


Jaime Portela




quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Os rios que nos separam



Ontem,
num germinar ponderado,
percebemos a rigidez das muralhas
que em nós acorrentava a coragem submersa
de espelhos sonolentos,
descoloridos de tão ocultos.
Da lua,
pronto engoli a brancura
de braços abertos
ao mar que em segredo de ti se agitava,
a dissolver na areia
a espuma do rio da incerteza.
Navegante,
aparelhei caravelas para te roubar do Tejo,
madraço no balancear azul
do teu espanto de velas enfunadas
pela brisa da descoberta.
Hoje,
em atracagens suaves,
fundeio em ti o barco da liberdade
e beijo as madrugadas
a bordo das tuas mãos enluvadas de estrelas,
rubras e mutantes da saudade
que enche cacilheiros a aproximar as margens
dos rios que nos separam.



Jaime Portela