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quinta-feira, 23 de março de 2017

Procura-me



Procura-me nas tuas palavras,
nos teus gestos ou no disfarce
da serenidade que te devasta.
Esmagarei o que te assombra.

Descobre-me no teu corpo,
no teu sangue ou no amordaçado recato
que desmaia o teu olhar.
Lamberei as tuas feridas.

Segreda-me os teus medos,
os teus silêncios ou as fraquezas
que estalam desalmadas no teu peito.
Beijarei a tua alma.

Procura-te, do teu vinho serei ébrio
a voar no teu regaço.

Descobre-te, serás a pele que bebo
nas asas do meu abraço.

Jaime Portela



quinta-feira, 16 de março de 2017

A rosa que há em ti



A rosa que há em ti
na dolência dos teus gritos,
quero vê-la abrir-se de orvalho
e de cores carmim revestida,
quero vê-la ao adormecermos
nas nuvens das copas das árvores
que plantámos com ventos de mar,
os mesmos que nos inspiram
numa torrente de igual fulgor.

Essa rosa, franzina no riso,
que de tão sensível
te atinge e subjuga inabalável,
quero tocá-la,
trajada com a fragilidade ilusória
da areia que o mar julga destroçar,
ao nos fundirmos deitados
na fogueira da inquietude
dos incêndios vivos da carne.

A rosa que guardas circunspecta,
que na seiva do teu querer me levanta
e me empurra para ti, é uma flor
que te aumenta, que antes nunca vi.


Autor: Jaime Portela


quinta-feira, 9 de março de 2017

Esta noite


Esta noite,
ao caminhar no inventário
que das nossas memórias conservo,
engoli o mar que nos une e separa
na vastidão de um tempo sem tempo
e abracei-te
com o sal que me acende de sol.
Esta noite
levei-te flores roubadas
do jardim que para mim plantaste
e nem uma ficou,
para que novos canteiros se abram
com a chuva salgada pelos beijos
de flores e carícias sedentos.
Esta noite
acreditei que podia voar e fui ver-te
de nuvens despida à espera de mim.
Cedi à saudade,
nutri de certezas
a tua arca de pétalas roxas
e bebi inteira a tristeza
que teima em queimar o teu peito.
Esta noite
derramei orvalhos
na rosa que há no sol do teu corpo.
Esta noite
salgaste os meus lábios,
bebi o sal que ao sol te ofereci.


Jaime Portela


quinta-feira, 2 de março de 2017

Ainda há tempo


Ainda que convencidos
da cumplicidade da pele
que no corpo estala em arroubos da carne,
poderão ser mendigas as mãos
que nas noites de espuma se enlaçam.

Ainda que convencidos
do poema que do afeto se abre,
os verbos poderão vacilar nos seus passos
e cair em jardins destroçados,
soçobrando no lodo de pétalas mirradas.

Mas, mesmo que o sol já tenha almoçado,
ainda há luz, e, enquanto o luar cresce
e nos abraça, ainda há tempo de acariciarmos
os versos da querença buliçosa
na rima do desejo dilatada.

Meu amor,
ainda há tempo de sol, ainda há tempo de luar,
para que a nossa pele se confunda
nas mãos que a fazem vibrar.


Jaime Portela


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

O olho da lupa



Acreditamos que há sempre,
algures,
uma cândida lupa que nos espia,
apesar de nos esquecermos de tal sentinela
(de contrário,
sentimos um frio na espinha que nos impõe
uma pose mais favorável).
Acreditamos, até,
que há uma sapiência omnipresente
no labirinto onde todos
nos podemos perder,
ao ponto de pensarmos
que os obstáculos são provações
deliberadas pelo olho da lupa.
E nós, vindos do pó
e que ao pó havemos de voltar,
fazemos de conta
que não somos apenas passarinhos reclusos
que gostam de cantar
engaiolados no espaço de penas
e no tempo carcereiro.
Fingimo-nos eternos,
enganamo-nos vivos,
e até inventámos
que o inverso não pode ser verdadeiro.


Jaime Portela


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Somos Deuses



Procuramos o ideal atolados em pântanos,
somos árvores perdidas a triturar
verdades escuras que adubam o chão
por onde se passeiam as raízes que nos sustentam.

Apascentamos a alma e engordamos a razão
num choro sereno,
imploramos que os braços se tornem frondosos
e abarquem um céu sempre azul,
filtrado das chuvas ácidas
que teimam em irrigar com prantos negros
as impotências da vida.

Esgravatamos as entranhas do saber
para encontrarmos o sílex do desejo,
dissolvemo-nos na pirólise de maciços rochosos
que embargam horizontes,
percorremos o mapa do querer em nascentes de força
que devorem o húmus indeclinável.

Somos Deuses,
fazemos milagres para que a seiva chegue aos frutos
que queremos ao sol,
suspensos à sombra dos nossos ramos.


Jaime Portela

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

O cetim inextinguível dos teus beijos


Correr para ti, na medida em que te falto,
é um sentir renascido
que germina oculto na sementeira dos sentidos,
é um silêncio
que se esmaga atroador no grito que detenho,
é um sonho que se furta indomável
ao sono em que perduro acordado,
longe do vento e do pranto.

Fugir de ti na medida em que te abraço,
é uma louca galopada
que mergulha nas marés do teu desejo cavado,
é um rasgar
da carta negra de intenções em desertar,
é um canto profundo
na lava que nos veste em fragores de rouquidão.

Vences-me sempre: mesmo esvaído em desejos,
despojas-me uma e outra vez
com o cetim inextinguível dos teus beijos.


Jaime Portela