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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Quando a noite chegar



Quando a noite chegar,
do ser ficará o corpo inconsciente
[será o vento a largá-lo à sua sorte],
deixaremos de contemplar o verde
e seremos incapazes de tocar o céu,
porque a paisagem
fugirá lentamente das retinas.

Quando a noite chegar,
a carne beijará o chão até ser terra
e os ossos, mais teimosos,
depois de se diluírem na chuva
em contínua viagem para o rio,
acabarão por ser despejados no leito
confundidos no musgo e na lama,
alimentando peixes.


Por isso,
enquanto não viajamos amorfos,
quero beijar a tua boca agora ardente
e provar todas as delícias
que há no mar do teu corpo ainda vivo,
de lábios por dois desejos unidos
num só abraço, num só poema cônscio.



Jaime Portela


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Nós e as moscas



Dançando no olhar,
a força da palavra divide as coisas aos pares,
e o nervo, narcotizado e incapaz
de perceber as diferenças num tempo lúcido,
distrai-se a cada chamariz cintilante
em que tropeça.

Numa batalha desordenada
de bolsos furados,
tentamos ver orifícios em portas esconsas,
para enfiar chaves perdidas
em caminhos errados
que não queremos saber se percorremos.

Lembramo-nos piamente das vítimas
exibidas nas montras que nos querem mostrar
e nem percebemos
que pertencemos ao rebanho de cordeiros
que se alimentam em prados de fast-food.

Em fila indiana, somos aliciados
como gado manso que apenas abana a cauda
para enxotar as moscas, elas sim,
geneticamente habituadas a mudar de lugar.



Jaime Portela


quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Germinal



Perdida,
mergulhada na loucura
de uma busca no vazio
que te roía as entranhas,
reconheci-te
no grito de raízes soterradas no lodo
em gestos níveos de cal,
hálitos que nasciam da tua boca
em plangentes cantigas de exílio.

Perdi-me
ao procurar a última réstia de fogo
no teu labirinto de gelo,
que percorri sem método
por entre os cotovelos resignados
das tuas feridas,
mas descobri uma estátua rosácea
que se ilumina festiva a cada carícia.

Daí que o calor de um abraço
faça milagres e que,
com o arbítrio das mãos,
te alimentes com as sementes
que no teu ego germinam.



Jaime Portela


quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Sei que há destino



Depois de sentir a vertigem da entrega,
mergulhei nas costelas de todos os vendavais
como um oceano impaciente que parte,
a toda a hora, as amarras do querer
do porto de mim mesmo.

Depois de beber a luz espelhada no teu rosto
e de enrolar no estômago a saudade,
vejo-me agora quieto, manietado,
como se de repente não quisesse
parar de ler o poema inscrito no teu corpo.

Depois de sentir a tua língua apurada
a sussurrar, percebi, enquanto sorvia
os teus suspiros dedilhados num cântico
parecido ao que Pedro fez a Inês,
que a vida estremece ao som de música.

Depois disso, sei que há destino
para a inexplicável poesia do presente.


Jaime Portela


quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Se vida houver para além da morte




Dos astros que ofuscam a nossa claridade,
seremos o eclipse, ressurgindo únicos
da curta borrasca do tempo,
para reacendermos o brio anavalhado
por autópsias sucessivas do que fomos.

Até então embalsamado em rotinas
de caminhos minados, o nosso sangue
fará praias das falésias traiçoeiras,
sem o medo de sermos dissecados
pelos bisturis intolerantes do despeito.

Adestraremos asas em voos rasantes
ao triângulo das Bermudas e, arrebatados,
gozaremos o caos  sem nos atarmos
aos sargaços das águas infetadas e
dolosamente mansas da resignação.

Se vida houver para além da morte,
será o tempo da demora preguiçosa
das minhas mãos no rosto do teu jeito,
o tempo de desenhar com os meus lábios
uma flor na tua boca eternamente verde
e de a fazer crescer no horto do teu peito.



Jaime Portela


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Pesadelo



Imaterial e desmedido,
carregado de estátuas
que se movem emancipadas a roçar a pele,
procura a barriga absorta do sono
enquanto imagens pardas de monstros
o alimentam de espaços voláteis
e de relógios ambíguos
numa babel irreprimível.

Manietada,
entrando e fugindo do olhar fechado,
que acende e apaga o tormento
ao ritmo de novas estátuas
que se vão dissolvendo e substituindo,
a vontade trava um duelo impotente
para unir o tempo imóvel
que se diverte
a engolir os gritos de sons invisíveis.

Numa rotura de suor,
os fantasmas pintados nas pálpebras
são finalmente expulsos pela razão,
ainda dormente,
e o sossego retoma a espessura do nada.
A batalha foi ganha,
mas nos ossos doridos fica a certeza
de uma guerra sonolenta e repetível…



Jaime Portela


quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O teu ar é o repelente



É na vulnerabilidade da tua pele
Que afago tapeçarias suaves
E onde traço silhuetas de luxúria
Com uma pena de sonho permanente.

É no orvalho do desejo derramado,
Sem a obstrução de juízos adormecidos,
Que da morte nos acordamos acesos
Quando a estremunhada manhã nos sorri.

És o expoente da minha certeza,
És árvore mulher de raiz no teu sol,
Onde me abrigo e enxuto me entronco.

O teu ar é o repelente, que me atrai,
Para afastar negras memórias que gritam,
Mas que à luz se matam em silêncio.



Jaime Portela