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domingo, 25 de janeiro de 2015

Reconstrução


respirámos imagens esquecidas
da nossa adolescência
e a nossa primavera
já remota
ganhou novas cores e limites

na paisagem de aromas de pinho
escutei o teu som inquieto
o verdadeiro
escoltado por tons de maresia
na floresta onde os cantos
se escapavam até nós
por entre mil dunas de desejo

o sol até ali silencioso
proclamou a minha felicidade
fecundada no teu rosto

não te abandono e continuarei
a colar fragmentos de ti
persistirei em ver-te
em juntar-te em reconstruir-te
até que fiques inteira


terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O parto do sossego


não tenho horas certas
de relógio alheio ou meu
mas em fortes badaladas
elas sempre comemoram o solstício
em que te libertaste
do teu desassossego

pariste-o nas minhas mãos
suave e tímido sossego
no êxtase das nossas línguas
num pulsar imaculado em réplicas
de emancipados tremores

não esbanjarei predigo-me
o que me sobra do tempo
a cozer-me no baço fogo da sopa
de vermes da incerteza
nem me sepultarei aceso
num fosso de mortalha alinhavado
quando o teu sossego é intransmissível
é teu é meu só nosso



domingo, 4 de janeiro de 2015

Fuga


a chuva copiosa e sem saídas
cercou-te em pedaços de nada
ficaste presa na tua própria armadilha

na fronte tinhas um cartaz publicitário do fracasso
mas as nossas mãos viajaram no piano
à procura da lua
que em breve irias pisar

montados nas palavras
facas que rasgaram as sombras dos teus medos
ajudei-te a fugir através do bosque dos sons
mas as notas eram flechas
que esbarravam nos muros de água
que teimavam em te abraçar
faiscavam retrocediam
e caíam nas lágrimas da tua destruição

dós sem sol capitulavam enlouquecidos
nas catapultas que vazavam angústias sem fim
de ti em mim
de um fim de tarde nunca sentido ferido sitiado
entre muralhas e dardos
angústias desvendadas por chispas
que se extinguiam em mares sem rios
em rios sem nascentes
em lagos verticais acordados de estios e de tédios
do teu sono sem ondas

mas
como afogados
agarrámo-nos a uma nota que saiu distraída com asas
filha pródiga dissonante à procura de aventura

voámos
fugiste para além do cerco dos sonhos que não tinhas
até que tudo se dissipou na distância
da floresta mágica de sons
pudeste então sorrir
soubeste pisar a lua
e no sol que concebeste
finalmente
viste que nada mudou na criança que há em ti


sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Rio sem margens


o vento empurrou-te para mim
numa réstia de sol matinal
que descobriu mais pombas que pardais
coladas ao teu corpo
de pássaros da chuva miudinha

afoguei-te na orgia
de bulícios de luzes solarengas engoliste
golfadas de murmúrios
de gestos apressados abandonada
no turbilhão de claridades inquietas

despenteei-te com voos rasos de ventos
desenroupados de sombras
abracei-te na passadeira vermelha
com a grandeza de um rio sem margens

guardei-te na memória futura
para que de mim estejam perto impressas
as pombas
os pássaros
e a chuva miudinha
fixadas no cobre do teu corpo de vénus