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segunda-feira, 30 de março de 2015

Só importa a caminhada.


Do nosso fado pensado,
são os teus etéreos passos
nas minhas mãos a bailar
que me transmitem porfias.

Dos altos montes que subo
sem temor ou desalento,
vejo a fresca verdade
no gosto da jornada,
domando, de prazer,
o calvário da saudade.

Não perco o sono, não sofro,
porque do nosso destino
já terminou a partida
e a chegada, se surgir, é o fim.

Logo, só importa a caminhada.


quarta-feira, 25 de março de 2015

Como quem faz amor


Não canto, nem escrevo,
a palavra molhada no pranto,
o poema pensando que morro.

Ajusto, concebo,
o canto a seduzir os meus versos,
a forma como quem faz amor.

Procuro, navego sorrisos,
fortuna do ter,
na vida pensando-me eterno.

Conquisto, como a tocar,
palmo a palmo
cada letra do teu corpo de mulher.


sexta-feira, 20 de março de 2015

Da partida deslembrado


A minha pele impregnou-se de ti,
da elegância da tua timidez
à mercê das minhas mãos ambiciosas,
vagarosas.

Depressa abandonaste as tuas penas
e voaste, branda pena,
para tão longe,
para tão perto de mim, sem tormentas.

Imortal foi o teu cheiro a maresia
a cada dobra do teu corpo renovado,
rebuçado na saudade,
da partida deslembrado.

Porque de livre mágoa algemados,
na pele das nossas asas cantamos
o ditoso caminho à distância,
inebriados, espelhados.


domingo, 15 de março de 2015

Ontem e hoje


Ontem, colori horizontes, construí
sonhos exatos nos verdes e azuis casuais
que me adormeceram
no castanho dos teus olhos.

Com os teus verdes milagrosos,
libertei-me da cegueira de invernias,
vi-te nas mimosas do Maio florido
do Monte de Santa Luzia.

Mergulhei, abatido,
nos tons de azul do rio Lethes,
sem me esquecer de nadar enverdejado
para a outra margem de ti.
Para lá do penedo ladrão,
ao pôr-do-sol, derreti o chocolate
das nuvens sobre o teu mar.

Hoje, vou misturar as tuas cores,
obter as tonalidades precisas para te pintar
nos tons vermelhos
da nossa eterna e suave revolta de amor.

Vou lembrar-me de ti na outra margem
rodeada de mimosas,
ofuscar a musa nas águas do rio
e afogar a sereia nas profundezas do mar,
para te ter, consumada.


quinta-feira, 12 de março de 2015

Trago em mim


Trago em mim,
De ti por todo o lado,
As mulheres que nunca tive.
És porcelana a palpitar
Molhada em vinho inabalável
Que se alastra no meu rosto.

Trazes em ti,
De mim em toda a parte,
Homens vários que sou e jamais dei.
Sou embriagado na verdade
Como quem ceifa searas com um gesto
Que junto ao chão dos nossos eus.

Tudo somado,
À vela dos arranjos
E das mil combinações realizáveis,
De ti em mim e vice-versa traduzidos,
Da nossa gesta irrepetível
De vinhos e searas, somos nós.


terça-feira, 10 de março de 2015

Sem horas


Reconhecer-te-ei
Entre todos os pássaros nos ninhos do bosque
Para além da chuva
E do tempo enamorado de mudanças

Beijar-te-ei
Como sempre
Tal como no primeiro minuto
Do nosso tempo acorrentado e sem horas



segunda-feira, 2 de março de 2015

Segredos de cozinha


Parte por parte, despiu-o numa meiguice febril,
Temperou-o ao seu sabor:
Pimenta, alho e cebola, sal, limão e Porto velho.

Na travessa, pôs-lhe salsa, rosmaninho atrás da orelha,
Mostrou-lhe o forno ardente, lume nos olhos, tições,
A queimar de tão acesos.

Na espera, de gestos prontos, adoçou unhas nervosas
Do frio abismo, sem fundo, onde esfriara lembranças,
Gazela triste, salgada,
Numa vigília sem estrelas de água-ardente de afetos.

No tempo certo, no preceito de toalha sem migalhas,
Branca e posta sem urgência de partida
Daquele caldo de amor, sem vacilar um talher,
Ela apostara sem medo todo o saber da cozinha.

Jaime Portela