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sábado, 25 de abril de 2015

Promessa


Quebrámos as convenções
que tolhiam a nossa liberdade
com a coragem
de um touro
e a naturalidade
dos cravos,
com a promessa de continuarmos a decifrar
o gozo essencial do sonho,
e de, nele mesmo,
nos mantermos mergulhados,
com a certeza
de abraçarmos a lembrança
que nos fará entoar
cantos à madrugada do agora
em concertos de liberdade para o futuro.


quinta-feira, 16 de abril de 2015

Acordei


Acordei, nos teus lábios,
a língua das minhas falhas embaraçada,
arrependida.
No meu cérebro, o sol explodiu libertado
num mar de estrelas que te dei,
para lavarmos,
crianças, as tuas mágoas sofridas.

Percorri-te o corpo do meu descuido sentido,
devolvi-te o branco
para que regressasses à pureza original.
Ansiaste, então, pela entrega abandonada,
numa sinfonia indestrutível de sons,
que preservaremos,
sem estigmas, em sinopses do porvir fortalecido.


sexta-feira, 10 de abril de 2015

Olhares


Olho
como quem nasce docemente,
cercado por névoas que se consomem
à medida que as lemos devagar.

Olho
como um aprendiz, no seu espanto,
a primeira mulher que vê nua,
lembrando-se da imagem para sempre.

Olho
sem medo de ser acusado,
vazio da predição da maldade
até que o verbo dobre insinuante.

Olho
como um faminto do excesso,
para a força que em ti é sedutora
e vestida com uma formosura alucinante.


sábado, 4 de abril de 2015

A feiticeira


Por vezes, passo noites de sono
a lutar no meio de tumultos de giestas.
Elas esfolam-me, arranham-me,
aturdem-me os tímpanos, cegam-me.

Tento escapar a correr como um louco,
mas dou comigo, confuso e esbaforido,
no poço das feiticeiras,
sítio assombrado da meninice perdida.

A erva, alegre como um pardal, embala-me
a pele, que fica sarada, sem marcas,
ao som de um poema sinfónico de Strauss,
abraçado de imagens tão deslumbrantes
como as dos Cem Anos de Solidão.

Então, sinto a leveza dos teus poros,
ouço a tua cristalina voz, maviosa, e vejo
golfadas de luz brotando de ti.
Já sei, é tudo obra tua enquanto durmo,
minha feiticeira.