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quarta-feira, 27 de maio de 2015

Cansado das palavras


Cansado das palavras,
saí da tua pintura e abracei-te.
Puxaste-me para ti,
espaço esmaltado num pedestal
que ansiava descer para o meu.

Para trás, nesse preciso momento,
ficou a construção,
traço a traço, dos alicerces
sobre os quais
hasteámos a nossa bandeira.

Hoje,
das janelas do nosso castelo altaneiro,
olhamos os frutos
de uma planície verde e sem nuvens,
uma tela feita de nós próprios.


terça-feira, 19 de maio de 2015

De tanto te querer


De tanto te querer,
sou estorvo de mim mesmo.
Perco-me por atalhos sem espelhos,
agito águas impróprias
para a tua nau
e sorvo as minhas próprias armadilhas.

Ao tecer este incauto abalroar
em tais ínvios azimutes,
onde o trivial seria naufragar
com os bolsos repletos de chumbo,
sei que serei salvo pela voz
do teu farol benevolente, que me atrai
e perdoa sem que eu resista à sua luz.

Embrulhar-me nas ciladas
e salvares-me deste meu distraído desacerto,
é um perigo com o risco de quebrar
uns quantos fios nas amarras
que nos atam livremente,
mas também é o fruir antecipado
da entrega remoçada
e o reforço, experiente e libertário,
da alargada e perene (re)união.

Mas o desígnio é de emenda:
procurarei, a todo custo, fugir às emboscadas
dos trejeitos desusados, para que, assertivos,
possamos comer o teu arroz sossegados.


quinta-feira, 14 de maio de 2015

Jamais


Jamais
me inquietaria, alvoroçado,
com a chuva açucarada dos teus olhos,
quais gruas
que me alteiam quietudes
num mar de mansas ondas de paixão.

Porém,
não ficam quedas, no teu corpo,
as mãos que enlouquecem quando acendo
o fogo do desejo,
a crepitar,
nos poros que um a um te vou bebendo.

Porquanto,
em mim, do teu sorriso alado,
habita a cidadela que te abriga
na paz fortalecida,
que revejo,
a cada beijo mais enamorado.


terça-feira, 5 de maio de 2015

A tua voz


Ouvir a tua voz
É comer
Frutos silvestres acerejados de mel
Espalhados no teu corpo.

Adormecer na tua voz
É fundir
A nossa pele no olhar que me agarra
A cada onda de prazer.

Acordar na tua voz
É a certeza
A desnudar a criança de incertezas
No teu fogo de mulher.