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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

No compasso do teu corpo



No compasso do teu corpo, afogas-me de mel
quando percorro os teus lábios
e arrastas-me até ao luar, que nos molha
em beijos com bocas de fome há muito plantadas.
 
Abandonas-te no que me perde e sou colo da tua
flor orvalhada de pássaro mulher, que ocupo
como o vento a afagar a delicada seara até que
as sementes fiquem maduras nos motins do teu olhar.
 
Morres no que me nasce e te invade no calor
desnudando os teus segredos,
entregues à descoberta sempre nova a cada chama,
a cada gesto de alma e coração desmesurados.
                                                                    
Libertamos os humores do nosso sangue,
detonados em clamores de fogo universal,
e adormecemos o sonho das nossas bocas
em conchinha de batel, de beijos de mel saciadas.



quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Sem pés de barro



O barro de que és feita,
foi-se colando à minha pele.
Galgados os poros,
acariciou-me as quinas dos sentidos já dormentes.
O meu barro, por sua vez,
foi aderindo aos teus segredos
e aguou as tuas mágoas
para te moldares à mulher quase sem medo
dos medos de antigos sóis.

Modelámo-nos na roda de sol
do Verão da nossa fantasia de oleiros
e passámos a ser um querer
barrado pelo desejo
e pelo sabor agridoce da partilha de suores,
onde navegámos
em nuvens de algodão e barquinhos de papel.

Mas,
porque temos a força de dois oleiros em delírio,
vamos moldar de novo o nosso barro,
a quatro mãos,
nos corpos ardentes das nossas noites de Outono,
cozendo-o no altar, sem pés de barro,
da Primavera da vida.


quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Beijar-te



Beijar-te,
será desvendar o gozo puro nos teus olhos
em berço largo fremente de candura.
 
Será entrar
no anel de fogo que inunda a tua carne
embriagada pela entrega com loucura.
 
Será reconhecer
aves intactas que voam
inocentes no sorriso delicado do teu rosto.
 
Será incendiar-te,
afogar-te o peito
levantado pelas chamas dos meus braços.
 
Será rasgar a minha fronte
para que a tua
se alague da nudez divinal que te habita.
 
Será sussurrar-te
palavras com rastilhos até que atices a pólvora
na desordem do meu grito sobre o teu.

Beijar-te,
será coabitar-te
até que eu morra a cada espasmo que te mate.


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Brando povo


Raro,
é atirarmos pedras ao lago adormecido,
onde navegamos à bolina
de ventos nem sempre verdadeiros.

Frequente,
é ninguém gostar [nem nós]
das ondas que felizes provocamos
na loucura mansa do sentir.

Dos naufrágios,
na espuma fátua dessas ondas reprimidas,
nem sequer somos capazes de salvar
a vertigem do sonho, a desmanchar-se.

Acorda brando povo,
porque, de brandos costumes,
mesmo num jardim à beira-mar plantado,
está o inferno mais que cheio.


quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Ainda era vivo o teu desassossego


Ainda era vivo o teu desassossego,
em mim foste noviça,
nasceste pura num templo insinuado
de cachaça e cocaína.
Do mutismo das tuas ruínas,
foi brotando uma flor
que passou a olhar-me como um sol
na timidez do nascente.
De feição embaraçada e ausente de ti,
o teu corpo, despido de festa,
era uma derrocada imponderável.
Foi então que as minhas mãos,
num enlace inesperado,
te entregaram aquilo que era teu.
Vive, mantém o corpo e a alma
para sempre inseparáveis, reconciliados.