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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Tango


No teu olhar de violino sentido,
marcas o tempo
em curtas vagas de silêncios
e largos passos de mágoas.

De corpo agitado,
domado por um piano afoito,
respiramos na matriz do bandoneon
ao ritmo do amor livre cativo,
amor carrasco e escravo
que nos mata a cada passo
numa dança de paixão arrebatada.

Visito o teu sorriso sofrido
que me abraça e repele,
enroscado na ternura em rodopio.
Viajas no teu génio abrangente de viola,
de olhar abandonado no cais,
onde fundeio o instinto, matador,
num morrer por ti já despido.

Mergulhamos, neste bailado insano,
até ao fundo dos mares,
dançamos um tango assassino
até sufocar os sentidos,
até que estas chamas nos matem
em tempestades de vida.


quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Desfolhada


A espiga que te dei, vermelha,
não foi trazida de casa, foi encontrada, por acaso,
no caos da palha do milho,
em braçados de cantares de verde tinto,
enquanto sacudias as barbas
das espigas dos teus olhos de sonhos desfolhados.
 
Submersos,
na dança de um vira picado no folhelho,
encontrámos o caminho e saímos da realidade
que nos matava o canto ao desafio
de concertinas desfeitas
nas borras das malgas do vinho emborcado.
 
O beijo que te dei, meu amor,
foi o mesmo que me deste, soube ao mesmo milho-rei.


quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Poema à Poetisa



Por fora,
no caos da criança-mulher e nos largos sorrisos
de poemas coloridos dos teus lábios,
és pouco menina.
 
Na dança de ventre da babel do teu sonho,
és já a mulher
que a vontade acode ao gerar
a seiva que coze e te transborda por dentro.
 
Anjo robusto,
entre a fragilidade do paraíso e a filial do inferno,          
de olhar bicudo por fora,
meia Florbela Espanca
e meia Maria Teresa Horta por dentro,
enroupas-te na mulher e meia de poeta agitada.
 
Um dia,
quando a ternura
te rebentar por dentro da pele irreverente,
vais colocar ainda mais sal e chocolate
no corpo das palavras e eternizar-te por fora de vez.
 
Talvez continues
a recusar baladas de fim de semana,
conversas não bailadas, sensualidade forçada
e “eu te amos” comprados de pessoas medíocres.
 
Contudo, se não vives por fora, morres por dentro.
Mas serás sempre formosa,
a escrever sem um lamento.


quinta-feira, 5 de novembro de 2015

As palavras que eu te disse



As palavras que eu te disse,
solistas no contraponto
de ventos insuflados de ternura,
são arbustos que cresceram no teu peito,
convertendo-se no denso arvoredo
do bosque dos nossos silêncios.

A ausência das tuas palavras,
num corpo boleado
de crenças em lenta combustão, há de ser
o espigar da embriaguez indecisa do teu ventre,
onde o sol reinventará
a tua alma de amante em lençóis de estrelas
enamoradas pela tua pele celeste.

Continuo a ver-te árvore,
mas corro o risco de te confundir com a floresta
que nos rodeia em chamas,
que te incendeia, que me queima,
devagar, neste Verão que tarda em acabar.