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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Desembarquemos


Há ventos que nos desviam
para rotas inúteis,
em águas geladas de rumos
sem roda do leme,
sem azimutes.
 
No retorno à amarração dos afectos
[do nosso mapa
vivo e tinto do começo original],
há vontades afogadas.
 
Já não sentimos na pele
o que construímos de fio a pavio
em tempos de mar chão,
num sopro desfeito
em vendavais de imperícia,
em acostagens a ancoradouro algum.
 
Desembarquemos,
 
Porque o nosso bote
[eternamente inacabado
sem leme, sem norte, sem costado],
resvalaria sem pedidos de socorro
para as águas madrastas sem fundo.
 
Desembarquemos,
 
Porque beberíamos a onda
do naufrágio final
à vela de palavras submersas
e agarrados a bóias de chumbo.
 
Jaime Portela
 
 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Fugimos


Fugimos do ruído trinado
dos passarinhos desmedidos, frutos sublimes
a vibrar margens que distraem o rio que há em nós.

Sigo os teus passos,
que se despojam em silêncio na sombra dos meus,
já ardentes.

Nos abandonos que percorremos,
na esteira de naus com ventos de desejos a remar,
flutuamos na cadência de asas
que planam sem esforço até se aninharem       
no hipocentro da nossa irrupção.

Escuto a desordem dos teus suspiros nus, ofegantes,
acolho os teus desejos silvestres despidos
nas entranhas dos meus.

No zénite da evasão,
no centro perpétuo do nosso pêndulo de Foucault,
explodimos no espaço
da vontade sideral da razão,
com o olhar, até então baço no lume da cobiça,
na voz do sexo que gritava mais fundo,
a fixar-se prisioneiro, recíproco.

E agora descemos, devagarinho, na placidez
da rama de algodão, até escutarmos,
não o ruído, mas a melodia
dos trinados cintilantes dos passarinhos.

Jaime Portela

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Saudades do futuro


A certeza brincava densa na palavra,
dormente e abandonada no prazer indeciso,
liquefeita e engolida pela enfeitiçada inquietude
que tocava, de tão afoita,
o nosso desejo macio.
Devagar, deixaste-me percorrer, uma a uma,
com mãos vivazes de anseio,
as frágeis defesas do corpo,
já despidas no teu rosto, na tua voz já perdidas.
Sem pressa, depressa nos vestimos de estrelas,
que lançámos quase vivas na fogueira
dos nossos voos luzentes
por entre nuvens espertas,
que em nós vazaram, cúpidas, toda a lava do vulcão,
gota a gota, que pensámos algemar.
Ah meu amor, se sentisses as saudades que eu tenho
das tuas mãos, do teu rosto,
do futuro de vozes e sorrisos já passados…

Jaime Portela

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Também nós


Também nós, sozinhos, caminhamos
numa estrada de um deserto
que não vai para lado nenhum.
Sem rumo, só sabemos como chegámos.
Essa estrada, mesmo estreita,
é o melhor lugar onde estivemos,
ainda que em cada curva não haja sequer um café.
Há flores de Abril desde o primeiro amanhecer.
Através de nós, sopra o vento, quente e seco,
mas enquanto lá fora chover no nosso olhar
a Primavera persiste no Verão que nos conquista.
Não dormimos e não há bebés a chorar,
há a mudança, a chegar serenamente,
trazendo com ela a intimidade buliçosa
da partilha inadiável dos suores da travessia.
Quando as minhas mãos te avistam no deserto,
de ti acodem inundados os meus gestos.
Quando dormes na minha exaltação,
é o sorrir, indeciso, que me acorda molhado de certezas.
Quando as minhas mãos ficam cegas,
chamam-te. E tu ouves,
num oásis que se acende verde, sem areia.
Porque és tu a mover-te na fome do meu corpo
e a beber na boca a minha sede.
Porque és tu a árvore que adormece
e desperta no meu sangue, que enlouquece.

Jaime Portela