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quinta-feira, 31 de março de 2016

Fala contigo


Fala contigo,
não fiques com os bolsos mal-humorados
de mágoas.
Desembrulha-as,
uma a uma, como se fossem rebuçados.
Prova-as e guarda apenas
os bons sabores de cada dor.
Os maus, atira-os
para o caixote do lixo do esquecimento.
Desta separação, verás que o grupo
das partes saborosas das tuas feridas
é muito inferior ao da lixeira,
mas será maior o seu valor.
Fala contigo, essas mais-valias
servirão para criares dias límpidos,
largos como o vento e renovados como o sol.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 24 de março de 2016

Gaivotas perversas


Acendemos a noite
e libertámos cavalos
que trotam selvagens por cima de nós,
corcéis desvairados
a vergastar-nos a pele indefesa,
seja em Paris, Nova Iorque ou Bruxelas.
 
Libertámos bestas sedentas
com cada vez mais sede
nos trilhos de feridas
que ampliamos em soluços,
úlceras globais em busca da cura.
 
As imagens, suspensas no tecto da vigília,
são lagos gelados de águas salgadas
apinhadas de gaivotas trocistas,
são espadas mecânicas
vibradas em espirais de terror
a perfurar alvoradas de cascos e penas,
numa autópsia de esporas
cravadas na sacarose do sonho
até que o terror se infiltre nos ossos.
 
E esperamos, sem fé,
que um rio de mel inunde as nossas chagas
e que a nossa insónia
seja afogada num oceano tranquilo
de cavalos em pastagens viçosas,
onde as madrugadas
sejam livres de gaivotas perversas.

 
Jaime Portela

 

 

quinta-feira, 17 de março de 2016

Livre e claro


Livre e claro é o despontar
dos gestos que remem até à praia
num advento premente,
coloridos de vertigem
e de sangue adornados.
 
Na luz,
podemos ser chama de nós mesmos
a estilhaçar grilhetas,
podemos ser
corpos emersos num abraço.
 
Não pode haver desculpa que assombre
a vontade ainda não habitada
pela incerteza poluta
de fantasmas a crescer.
 
Por isso,
espantemos o dissabor da apatia,
porque somos seres vivos
num corpo apenas
e enxame pensante a um tempo.

 Jaime Portela

 

quinta-feira, 10 de março de 2016

Ouvimos o céu a dissolver-se


Nos teus olhos, a menina.
No teu corpo, a Primavera salpicada de inocência.
Na tua pele, alvoradas,
que no teu rosto se despem, adolescentes.
 
Provo a seda no paraíso dos meus dedos
ao percorrer-te no desamparo de nascente virtuosa.
 
Sinto o pulsar das galáxias inflamadas
no teu coração sem freios,
a correr amotinado por trigais de volúpias espigadas.
 
Acendo-me, corcel indomável,
nos lampejos dos teus olhos.
 
Embriago-me na barca da tua rosa orvalhada.
Enlouqueço, encalhado, ao desaguar pródigo
na areia da tua praia a escaldar.
 
Afogo-me, batel desgovernado,
no teu mar turbulento,
no sobressalto da preia-mar
com ondas que as bocas já não abarcam.
 
Naufragamos, sãos e salvos,
abraçados na jangada do sossego,
certos do regresso aos baixios da razão
adormecida à beira-mar da ventura.
 
Por fim, ouvimos o céu a dissolver-se
nas brumas do tempo. E amansamos
o suor dos corpos a flutuar leves, sem um lamento.

 
Jaime Portela

quinta-feira, 3 de março de 2016

Hoje não sou bombeiro incendiário


Hoje não sou as margens que te enlaçam
como ninfa mareante
a vogar arrebatada na corrente de um rio cristalino,
nem a água que corre sagaz
na pele do teu corpo ainda moço.
 
Hoje não sou o olhar atrevido
à janela da tua procura,
nem gesto de pássaro errante
na tua rota [aparente] de gazela perdida
a viajar na distância que te aparta de mim.
 
Hoje não sou fome nem sede,
muito menos o bombeiro incendiário do teu acirrado fulgor,
ou mente de boca insana a percorrer, consistente,
a carne dos teus segredos.
 
Hoje sou o silêncio
que escuta na concha o mar do teu grito,
sou o sussurro do vento que te enroupa de concórdia,
sou o murmúrio da chuva miudinha
que te chama para um rio de janelas luminosas.
 
Hoje sou o recato encontrado no teu segredo escondido.
 

Jaime Portela