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quinta-feira, 26 de maio de 2016

A minha imagem real


A minha imagem real
anda do corpo arredia, fugidia.
Não a vejo, não a toco,
escorrega-me dos dedos
qual enguia libertina.
Não a domino, a vadia.
Cata-vento e dançarina,
mostra-se sempre diferente,
muda de cor, de feitio,
de tamanho e de feição
a cada olhar que pressente.
Estou a pensar que a travesti
é obra alheia e não minha.
Por isso,
não presumam como certos
os retratos que vos dou.
Inacabados e toscos, nenhum
deles me revela por inteiro
e nem eu sei o que sou.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Não adormeças verde


Não adormeças verde
à sombra de palavras rosa,
nem de branco procures
frutos coloridos
com o círio da tua fantasia.
Não bebas o som multicor
que se liberta da forma,
como se ele pudesse lapidar
a desordem azul da tua vida.
O verso, mal dissecado,
é avesso à perceção,
ao sentir,
já que a lira te dá apenas
um serenar movediço.
Uma cor deformada
é pior que uma tormenta,
pode dourar horizontes do porvir
como um anjo imaginário.
Não te escondas,
esquece o escrito e descobre-te
na respiração do inscrito,
pois quase nada
do que é dito é transparente.
 
Jaime Portela
 

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Deixei de ver nos teus lábios


Deixei de ver nos teus lábios
a madrugada
e de respirar um segredo.
Já não leio nos teus olhos
nenhuma certeza
e abraço a espessa fronteira
que sangra de ausência.
Ainda que desassossegados
da mesma poesia sem muros,
mas com tijolos ternamente diferentes,
fomos iguais nas paredes de pele
que arquitectamos tocar.
Mas deixámos de querer
cascas ruidosas no ar,
capazes de provar
a duração efémera do universo.
Ensurdecido pelo trovão
de um contentamento que se desfez,
agora inalo a futura nicotina,
o meu anestésico
na mutação das margens destruídas.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Há mãos vazias que partem do cais


Há mãos vazias que partem do cais,
apressadas,
fugindo em naus que sulcam águas
de brandura na querença da chegada,
cavadas na crença de rasgarem, destemidas,
quaisquer vagas alterosas
que à proa do desígnio se acostem.
Há barcos velhos ancorados
numa enseada de mar traiçoeiro
a encarecer os sonhos,
mal estivados e a zarpar sobrelotados,
na maresia da flor de sal espraiados
de tão arpoados no sangue.
Há vontades acossadas de partir e de ficar,
de ser pássaro migrante e sedentário,
de passar a vau para a outra margem
sem percorrer todo o rio de gente que sufoca.
Haverá limbos verdejantes e fanfarras
que desfraldem cantilenas de braços abertos
no porto de abrigo à chegada?
Ou apenas umas tábuas
para os afogados que derem à costa?
Porto de uma razão e timoneiros da desgraça,
vão na esteira de outras partidas
numa rota vezes de mais naufragada.
 
Jaime Portela