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quinta-feira, 30 de junho de 2016

És uma Deusa, afinal


Saíste da espuma do mar,
um rebanho branco nervoso do vento.
Imaginei-te sereia, princesa,
fada, moira ou feiticeira.
 
Num oceano de raivas fáceis,
navegámos sem nau
e não usámos
a bússola dos argonautas infames.
 
Vogámos ao sabor das correntes
de frases sem rédeas e, distraídos,
fundeámo-nos virgens
em portos estranhamente conhecidos.
 
À vela de sorrisos desfraldados,
brindámos, de mãos dadas,
com as nossas próprias taças
a transbordar de ternura.
 
Espartano, hesitei…
Então, o mar Egeu do teu corpo
a beijar o Monte Olimpo,
ofertou-me um oráculo.
 
Decifrei-o.
Procurei e encontrei-te:
No meio das tuas gregas colunas,
sucumbi no teu altar de Afrodite.
És uma Deusa, afinal.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 23 de junho de 2016

No teu rosto

 
No teu rosto,
revivo a alvorada.
Nas meninas
dos teus olhos tristes, a alegria,
hoje menos preguiçosa.
Relemos, nos lábios da noite,
os segredos que nos falam
das fronteiras do que somos,
margens que calamos
porque as sabemos largas de sóis.
Afundo-me no centro dos teus vértices,
no teu anel de mosaicos
que me ofereces
liquefeito num abraço de carícias.
Beijamo-nos,
engolidos por silêncios de ventos
perfumados em espirais
a crescer de ternura.
Respiramos o pólen a dilatar-se
em cogumelos de sentidos
no âmago de vórtices de veludo,
onde acasalamos odores e desejos
transpirados.
Adormecemos brandos
nas meninas dos teus olhos a sorrir,
crianças intactas na brancura
transparente de anjos inocentes.
 
Jaime Portela

 

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Na geometria do sonho


Ergueu-se o horizonte, entorpecido,
numa espera de mil anos.
Revelaste um firmamento
semeado de estrelas com voz
que emitiam sinais claros de luz
a balizar-me para ti.
Detonaste o assombro
no trilhar de verbos estrangeiros
em tapetes de vertigem.
Viste-me em gestas de fogo teu
por entre as frestas
do gelo que te cercava num cais
em chamas de vazios.
O nosso grito não será diluído
na geometria do sonho, recíproca,
voará com o nosso sangue inscrito.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 9 de junho de 2016

O que sentimos


O que sentimos
não deixa que a chuva nos molhe,
não tem dentes
porque é por dentro que nos abriga.
O malmequer da saudade
não nos devasta,
não nos desgasta,
porque atrai borboletas sem unhas.
As palavras que dizemos
não são navalhas,
são pétalas
que escanhoam a tristeza pela raiz,
são enxadas que nos mostram
as ervas daninhas
do nosso caminho roçadas.
Os beijos que trocamos
não se estranham,
são lampreias
que desovam no rio onde nascemos.
O pasto do teu corpo
é uma fogueira
onde o meu corcel se alimenta,
a galope,
de crina em riste, altaneira.
O mar do meu corpo corsário
é pelo teu barco domado,
és navegante sem precisar de remar,
rasgas marés vivas, pirata,
até à gávea do mastro.
 
Jaime Portela


quinta-feira, 2 de junho de 2016

Os nossos dias foram expulsos do tempo


Os nossos dias foram expulsos do tempo
e não se corrompem
na noite da distância envidraçada.
         O escuro não existe no teu corpo
         e a luz perdura no meu peito.
 
Os nossos dias não serão colados por vazios
nem cosidos por contínuos tracejados,
porque encheste os olhos de mim,
já ocupado por ti
sem vidro nos telhados.
 
Os nossos dias, memoriais da paz coabitada
sem começo aparente,
são exteriores aos compassos do tempo
e estão presos à liberdade sem hiatos.
         São datados os teus finitos sinais
         como num coito vestido de infinito.
 
Jaime Portela