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quinta-feira, 28 de julho de 2016

Vira picado


Quando acarinho o teu corpo
[planície ondulante
numa dança de ventre de trigo maduro]
crescem-me as mãos nos dedos da ternura
como lírios viçosos
nas águas do bem-estar orvalhado.
 
Quando olho os teus olhos,
que em chamas candentes me procuram ávidos,
o meu coração bate menino mimado
pelo brilho
[imparcialmente seduzido e sedutor]
do teu olhar.
 
Quando nos abraçamos,
enterramos a distância que separa o sol e a lua
para nos absorvermos inteiros
na espessura de vácuos protectores.
Vestem-nos de paz aguerrida
ao morrermos despertos
em ecos nus de ruivas cores acordadas.
 
Num mar de afectos encrespado de bonanças,
ao som de calmarias que adormecem navegantes,
sou marinheiro a ti ancorado
no vira de cruz
da vida que de malhões se vai agitando.
 
Meu amor, canta, dança, dissolve as contradanças,
não há vira picado que vire a alegria.
És a moira que canta
a dança dos dias no fogo da noite ateada.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Tretas


Brinca como quem finta
farsas de comparsas
com a réplica desperta na deixa certa.
Troca o destino ao desatino,
contesta a festa
quando, imbuído, há descabidos.
Faz do enigma um não estigma,
celebra o mistério menos a sério
e não faças troça da velha carroça.
Esgota a fraqueza
no princípio da incerteza
com a mesma energia da luz do dia.
De qualquer modo, não fujas logo,
não me obedeças nem desfaleças…
Confuso? Será isto obtuso?
Sim e não, meu irmão,
mas nada incluso na vida é escuso.
Só que tretas não puxam carretas…
Ou puxam?
 
Jaime Portela

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Hoje e sempre enamorados


A tua voz…
A tua boca…
Um mar de sussurros frementes,
a flutuar nas ondas risonhas de luz
que brotam
da espuma renovada nos teus olhos.
 
O teu corpo…
A tua pele…
Fonte adornada pelo teu bem-me-quer,
estrela-do-mar do teu secreto coral
a semear revigorados humores,
rio inundado
de aromas vivos de algas.
 
O teu mar…
O teu beijo…
Nele me envolvo primevo,
num mergulho túmido
que me transforma,
que me aplaca em bálsamos de sargaços
no embalo de um colo divinal.
 
Porque afogamos num rio sem margens
os gritos a uma só voz,
num só corpo,
na corrente redentora de dois mares
hoje e sempre enamorados.
 
Jaime Portela


quinta-feira, 7 de julho de 2016

O oposto do sol-posto


Respiro o mar das vontades
que ondulam nos teus olhos,
engalanados com o brilho
refletido pela avenida apinhada
dos nossos andores acesos de fogo,
cortejo de um Maio florido
a celebrar o fim do teu Inverno,
a avolumar-se das andorinhas
que há tanto tempo aguardavas.
 
Na crista dessas ondas,
onde o amor com hélices impulsiona
barcarolas atulhadas de certezas,
preservo as tuas palavras
até aos sons derradeiros
no sacrário das minhas memórias,
para beijar a tua boca
sempre que o vácuo da distância
impeça que os teus lábios
se propaguem vivos até mim.
 
Mas é no teu corpo
que percebo o oposto do sol-posto,
que encontro o cálice
donde bebo as estrelas do teu gosto.
 
Jaime Portela