Translate

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O vento lá fora numa fona



O vento lá fora, numa fona,
a tentar revolver o avesso das pessoas…

E nós cá dentro
num poema de dois corpos,
a serenar a desordem crescente
da cronologia das palavras
que disparamos às cegas,
emaranhadas nos beijos
arrebatados pelo vendaval
dos vasos comunicantes do sangue.

A chuva lá fora, desalmada,
a tentar desabotoar a calçada…

E nós cá dentro
a relaxar nas lareiras do corpo,
a enxugar palavras revoltas
nas gavetas orvalhadas pelas mãos,
a desembrulhar verbos no verso
das pernas da provocação
e a abrir enxurradas no caos
das cabeças sem distância.

O vento e a chuva cá dentro,
amainados,
num abraço tântrico a crescer,
onde só os olhos se mexem
a ouvir murmúrios nas promessas
de ventos com chuva de mel.


Jaime Portela



De férias, blogue a funcionar sozinho...


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Os rios que nos separam



Ontem,
num germinar ponderado,
percebemos a rigidez das muralhas
que em nós acorrentava a coragem submersa
de espelhos sonolentos,
descoloridos de tão ocultos.
Da lua,
pronto engoli a brancura
de braços abertos
ao mar que em segredo de ti se agitava,
a dissolver na areia
a espuma do rio da incerteza.
Navegante,
aparelhei caravelas para te roubar do Tejo,
madraço no balancear azul
do teu espanto de velas enfunadas
pela brisa da descoberta.
Hoje,
em atracagens suaves,
fundeio em ti o barco da liberdade
e beijo as madrugadas
a bordo das tuas mãos enluvadas de estrelas,
rubras e mutantes da saudade
que enche cacilheiros a aproximar as margens
dos rios que nos separam.



Jaime Portela


quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Quando a noite se demora



Quando a noite se demora
cresce um deserto no ar,
mole e inquinado
da estagnação a desoras,
com véus pardacentos
a criar anéis infindáveis
que de crua dolência te afogam.

Nesse forno de pretextos,
desenhas corações marialvas
em árvores abandonadas,
bebes a claridade da lua
ou cantas na Mouraria
o triste fado da Severa.

Adulta, despertas remoçada
nos afetos que te invadem,
de mansinho,
em trinados de alforria insubmissa,
e te lançam no colo nu da sedução
de pensamentos sofridos despida.

De ternura engalanada no corpo,
semeias os teus olhos multiplicada
no leito sempre aberto do meu peito,
que a chuva dos teus beijos amacia
e onde te deitas ao sol, demorada…



Jaime Portela


quinta-feira, 27 de julho de 2017

Somos vampiros ao sol



Em sensata alucinação,
consentida
e semeada de metáforas
mais ou menos libertinas,
os dias sucedem-se
a beijar abismos
nas grutas de sombras
que nos atraem
como drogas duras
a aliciar veias resignadas.
Se estendemos, corajosos,
os braços à realidade,
injetamo-nos
com transfusões do nosso sangue,
lambemos o contraveneno
para resistirmos
aos dentes incómodos
ferrados na carne.
Somos vampiros ao sol,
de olhos fechados
no mel de nós mesmos,
como pássaros a beijar
sementes de sésamo
na fuga ao Mito da Caverna.



Jaime Portela


quinta-feira, 20 de julho de 2017

As tuas garras



As tuas garras
sempre temeram os desígnios predatórios
que a juba leonina dos meus passos te ditava.
Contudo, o meu olhar mascarado de felino
apenas procurava o teu rasto
[de odores de leoa impregnado]
e lamber as feridas que açoitavam o teu rosto.

Apesar disso,
viajámos na direção oposta do disfarce e,
sem um arranhão,
fomos abrindo gargantas e rios
na serrania de espinhos do teu dorso,
que ainda sangrava das travessias de brumas.

Sorvemos ao sol
o fel de opressões envelhecidas,
refreámos poemas
em rimas que tememos entoar
e comemos o choro amanteigado
em forma de bolo com velas
a adocicar o grito que a tua garganta calava.

Ainda ferida,
continuas leoa briosa do teu território,
mas deixas-me entrar
sem mostrares as tuas garras:
cortaste-as e pintaste-as, porque acreditas
que o meu cheiro é miscível com o teu.



Jaime Portela


quinta-feira, 13 de julho de 2017

Na tua boca a escaldar



Quero abrigar as verdades
no teu olhar maturadas,
colhê-las, guardá-las todas a jeito
sempre à mão de semear.
Quero ver luas, seguras,
a fitar estrelas polares,
pintá-las, espalhá-las à medida
da tua face ao luar.
Quero aquecer os teus pés,
sentir Invernos de chuva,
preguiçosa, a correr pelas janelas
sem vontade de acabar.
Quero ouvir cantar o galo
a despertar-nos vaidoso
todas as manhãs de sol
no teu sorriso sem trevas.
Também quero, insaciado,
ceifar o trigo espigado
no equinócio das palavras,
maduras, na tua boca a escaldar.



Jaime Portela


quinta-feira, 6 de julho de 2017

Podes encostar a cabeça no meu ombro

Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo,
não se transforme também em monstro.
E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo,
o abismo também olha para dentro de ti.
Friedrich Nietzsche




Nunca foi meu costume
cair em abismo
ou depressão,
mesmo que isso represente
um degrau sem altura que se meça.
Mas se alguém resolvesse
dar um tiro na certeza
[por engano]
e prenunciasse
[qual profeta
que a poemas recorresse]
estar errada a minha crença,
eu faria uma comédia
no mais sério desatino,
como se rir
fosse magia que mudasse
o que é mesmo uma tragédia.
Por isso,
podes encostar a cabeça no meu ombro,
podes chorar,
podes rir,
com ou sem comédias e tragédias
[não serei contagiado]
como se eu fosse um trampolim
para saltares
os degraus que te afundaste.


Jaime Portela

quinta-feira, 29 de junho de 2017

O princípio do fim começa agora




Nascem lendas, morrem mitos,
rasgam-se mapas vivos
com as naus que timonamos
a desbravar a existência
com mãos-cheias ou vazias de bom-senso.
Salgamos a loucura
num mar de humores desbragados.

Sobrevivemos a mares exaltados
ou flutuamos a navegar
em lagos chãos de águas frescas
ou inquinadas, muitas vezes,
por outras naus desumanas.
Somos náufragos do tempo
onde se quebram certezas.

Em qualquer caso,
fiquemos preparados,
porque empurrado por ventos de feição
ou desnorteado por bússolas cegas,
o princípio do fim começa agora.



Jaime Portela

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Era um fogo sem margens









Era um fogo que vinha,
não vinha, voava,
saltava no vento
e surgia do nada.
Que ardia e se via
na beira da casa
e na berma da estrada.
Que rodopiava
por tudo e por nada
que não crepitava,
estalava.
Era um fogo a lavrar
no que havia a limpar
à porta das portas
e na cama das matas,
desordenadas.
Que tudo crestava
por onde passava
e até as gargantas
fumadas queimava.
Era um fogo sem margens,
sem peias nem meios,
com dúzias de vidas ceifadas.
Era um fogo indecente,
incomplacente,
onde só as crianças
foram inocentes.


Jaime Portela

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Estás tão longe de mim



Estás tão longe de mim
que viajo até à nobreza do teu decoro de velas
suspenso no feixe de luz que te nasce do olhar,
porque o guardo comigo para voarmos bem perto.
Quando chegas,
é como rosa em botão que te descubro,
ainda fechada,
solitária e pronta a explodir
em mil sóis de pétalas que me abraçam em delírio.
Peça por peça,
vou-te mostrando no brilho que te inunda
as pedras preciosas
que me dás infatigável do teu ser ao desbarato.
Eterna menina em flor,
musa traquina de afetos, estás tão longe,
nas brumas…
mas tão perto de mim e da luz
que posso beijar os teus dedos, os teus sonhos,
numa dança desfragmentada de lembranças,
corpo a corpo, onde te mimo e te amo.


Jaime Portela


quinta-feira, 8 de junho de 2017

Esta noite



Esta noite
quero demorar-te em mim,
quero ficar em ti, provar-te
e ser saboreado na carne da alma,
no magnetismo indizível
que a distância não embarga.

Esta noite
quero fazer de ti o meu canto,
de mim o teu encanto,
quero tactear os teus sinais,
respirar à luz do fogo
que ateado em duplicado
dissolva a nossa ausência.

Esta noite
quero tocar em ti resplandecente,
quero desarrumar-te,
sorver o borbulhar do teu corpo
e verter champanhe bruto
na tua taça de cristal.

Esta noite
quero sonhar contigo,
quero brindar-me inteiro
no teu corpo vivo em desejo.


Jaime Portela