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quinta-feira, 22 de junho de 2017

Era um fogo sem margens









Era um fogo que vinha,
não vinha, voava,
saltava no vento
e surgia do nada.
Que ardia e se via
na beira da casa
e na berma da estrada.
Que rodopiava
por tudo e por nada
que não crepitava,
estalava.
Era um fogo a lavrar
no que havia a limpar
à porta das portas
e na cama das matas,
desordenadas.
Que tudo crestava
por onde passava
e até as gargantas
fumadas queimava.
Era um fogo sem margens,
sem peias nem meios,
com dúzias de vidas ceifadas.
Era um fogo indecente,
incomplacente,
onde só as crianças
foram inocentes.


Jaime Portela

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Estás tão longe de mim



Estás tão longe de mim
que viajo até à nobreza do teu decoro de velas
suspenso no feixe de luz que te nasce do olhar,
porque o guardo comigo para voarmos bem perto.
Quando chegas,
é como rosa em botão que te descubro,
ainda fechada,
solitária e pronta a explodir
em mil sóis de pétalas que me abraçam em delírio.
Peça por peça,
vou-te mostrando no brilho que te inunda
as pedras preciosas
que me dás infatigável do teu ser ao desbarato.
Eterna menina em flor,
musa traquina de afetos, estás tão longe,
nas brumas…
mas tão perto de mim e da luz
que posso beijar os teus dedos, os teus sonhos,
numa dança desfragmentada de lembranças,
corpo a corpo, onde te mimo e te amo.


Jaime Portela


quinta-feira, 8 de junho de 2017

Esta noite



Esta noite
quero demorar-te em mim,
quero ficar em ti, provar-te
e ser saboreado na carne da alma,
no magnetismo indizível
que a distância não embarga.

Esta noite
quero fazer de ti o meu canto,
de mim o teu encanto,
quero tactear os teus sinais,
respirar à luz do fogo
que ateado em duplicado
dissolva a nossa ausência.

Esta noite
quero tocar em ti resplandecente,
quero desarrumar-te,
sorver o borbulhar do teu corpo
e verter champanhe bruto
na tua taça de cristal.

Esta noite
quero sonhar contigo,
quero brindar-me inteiro
no teu corpo vivo em desejo.


Jaime Portela


quinta-feira, 1 de junho de 2017

Percorri a utopia do teu corpo



Percorri a utopia do teu corpo
e descobri os recantos
de gelos arcaicos vividos.
Rebentaram águas quentes,
inquietas,
feitas nascentes em refúgios proibidos.
Agarrei-me à tua agitação provocante,
alucinante,
até à fraqueza.
Abandonámos o sonho
no zénite da explosão capital
a que nos conduzimos.
E quebrámo-nos para poente,
sabendo que
o sol nascente em breve renasceria.



Jaime Portela


quinta-feira, 25 de maio de 2017

À margem dos sentidos



À margem dos sentidos
que as mantêm cativas,
trago comigo palavras soltas
que me querem decifrar,
que lutam entre si
para me retalhar indignamente
e devassar esconderijos
que eu próprio desconheço.

Destes pássaros altruístas,
que cantam por tudo e por nada
continuamente de graça,
não fujo nem me salvo,
porque entre eles e eu
há uma certeza cravada
que se arruína
mal se constrói à deriva no não dito,
naufragando sem rumo
nas brumas do sentido.

Entretanto, em fila indiana,
o rebanho manso das palavras
vai sendo riscado em poemas
vivos de pássaros
pousados nas linhas,
que se organizam
na mira dos contornos de um retrato
que só desvendado adivinho.



Jaime Portela


quinta-feira, 18 de maio de 2017

A flecha



Não viajo a tropeçar
por caminhos impossíveis,
não me recreio galante a escorregar
no gelo de mares aterrados,
nem me sonho a remar por desertos
com dunas perdidas
nos pés descalços a escaldar de dúvidas.
Não luto por causas que penso perdidas,
não entro em duelos de morte
nem durmo em oásis de verdade
condenados à secura circundante.
Por isso,
não sei o que rasga e sacode a minha paz,
não sei o que me atordoa e conduz
à tua mão envolvente,
nem sei por que te avisto,
preto no branco, ao mais brando respirar.
Apenas sei que de ti vem uma flecha
que me acerta a cada gesto,
que me enlouquece
da luz espelhada no teu nome.
Mas também sei que me fere de prazer
toda a carícia imaginada.
Por isso, só pode ser a flecha do Cupido
a vir de ti de amor envenenada…


Jaime Portela


quinta-feira, 11 de maio de 2017

Grito



Na bondade do arco-íris,
que quase todos professamos nos olhos
em juízos vivos de seres mortais,
há vergonhas negras no céu
que nos deixam no chão
por não vermos andorinhas
na razão de desgraças tão injustas.

Por outras palavras,
todos gostamos do belo e do útil,
do viver e do crescer a sorrir…
Aceitamos o frio e o calor,
o vento que nos despenteia
e o fim que há de vir.

Porém, porque não gosto nem aceito
o silêncio cinzento, orquestrado,
acuso o olhar cego do Homem
e a proteção ausente dos Deuses
[a assobiar distraídos]
perante a fome obscena, perene,
que enche de morte a barriga caduca
das crianças dos genocídios de sempre.

E grito, porque não rezo
na procissão dos Homens calados
nem canto no coro cego dos Deuses.


Jaime Portela


quinta-feira, 4 de maio de 2017

O meu legado


Pensando alto,
só agora concluí que não sou original,
pois não surgi do nada,
não apareci, por artes mágicas,
do vazio ou do éter,
e nem sequer o pecado do começo foi inédito.

Existo por opção alheia e ilusória,
não fui ouvido nem achado e,
muito menos,
criado a partir de um meu desejo.
Sou apenas o produto da ínfima probabilidade
de um projeto de vida aleatório.

Ainda assim,
repiso vivências sentidas,
digo ideias antes ditas com palavras repetidas,
porventura mal pensadas,
e quero de um modo já velho
como Adão queria Eva.

A minha memória genética
encerra lendas vivas,
reminiscências mais ou menos sonolentas
e outras quase mortas,
nos neurónios que andam distraídos
com lengalengas futuristas.

No parágrafo da minha existência,
pareço um amontoado
de palavras despejadas de uma página,
e serei,
na melhor das hipóteses,
um dador de histórias futuras
após o desenlace da última linha.

Mas não quero ir já embora.
Se não posso falar, eu penso, eu escrevo
[o meu abrigo é o agora],
para que o meu legado conste
nos projetos de vida aleatórios seguintes,
até que as lendas morram
e não marquem os pecados dos seus genes.

Jaime Portela

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Na leveza vencida do olhar



Encontrei um tesouro
quando senti um aroma delicado
nas palavras que tecias com afeto.
Tendo pensado em beijá-las
com a faina indefensável do meu jeito,
compus no teu corpo
o desejo alicerçado de o abrir.
Descobri um sorriso de luz
aberto nos teus olhos,
que bebi,
até que em mim, a escaldar, se fundisse.
A razão,
antes cansada do gota a gota do sol,
ficou turva da tua limpidez
em segredos embrulhada, que rasguei.
Na leveza vencida do olhar,
encontrámos um rio caudaloso
e conquistámos, hirta,
a persistência da carne a acreditar.



Jaime Portela


quinta-feira, 20 de abril de 2017

Há quem diga



Há quem diga
que o poema só vale uma ilusão
de salvar do naufrágio a certeza
arrumada além-mar do coração.

Há quem jure
que a alegria vale menos que a pobreza
de carpir a presença da saudade
no sorrir macilento da tristeza.

Também dizem
que um poeta só vale a ingenuidade
a cuidar que é verdade o seu amar
sem julgar o que é falso ou realidade.

Ainda assim,
é no todo que eu busco o meu trovar
sem banir a contenda que me assola
no silêncio dos cantos por achar.



Jaime Portela


quinta-feira, 13 de abril de 2017

As velas que nos arrestam


Impúdica,
descobres-te de um jeito rebelde,
sabendo que o sol que irradias
me desacata e seduz
em recatos de palavras
emersas nas fragrâncias da pele
à contraluz do teu céu.

Atingido,
tacteio os teus seios miúdos,
fartos e dóceis
aos meus gestos lúbricos,
em carícias recíprocas dilatadas
pelas confidências nuas
de cúmplices amantes.

Na chave que desatina
em secreta fechadura,
sou o patrono,
sou o criado
das brumas que te molestam.

No mastaréu em espertina
em barcarola madura,
és a serva,
és a dona
das velas que nos arrestam.



Jaime Portela


quinta-feira, 6 de abril de 2017

A vida pode ser eterna e mansa


Em cada momento,
conheces da vida a candura dos afectos,
sempre desvendados
pelo nariz atrevido de ateia cristã
e embalsamados em sonhos na retina,
visíveis pelo brilho entrelaçado nos teus olhos.
É o agora a silenciar o depois…

Vacilando entre a luz e as sombras,
viajas com os olhos
por entre a chegada em alvoroço
e a partida de afogo insuportável,
com a boca ferrada na dança dos corpos
a embalar o inadiável,
numa cama de metáforas onde te deito
e te amo.

O deslumbre da Primavera
é o tempo de içar velas na certeza
de marearmos na esteira da estrela cicerone,
que de nós tão companheira
nos guia de mãos dadas.

Caminhamos na cumplicidade
de passados dispersos,
beijamos a pele de uvas maduras
de paladares antigos,
renovados na paz dos frutos silvestres
saboreados com o mosto que no corpo fermenta.

Navegamos na embriaguez a projetar-se,
lenta e voluptuosa,
na ternura tatuada do desejo sem saída,
acerejada  no incêndio festivo
do teu botão de rosa
em inúteis espinhos escondido,
que afago em gestos finos,
numa partilha em dádivas prementes concebida.

Para nós,
a vida pode ser eterna e mansa,
sem pressa, sem sustos ou medos de criança…


Jaime Portela