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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Campinos de touros distraídos



Na ternura da lezíria,
ao pôr-do-sol mais dourada,
somos campinos de um paraíso
feito de planícies de touros distraídos.
Caminhamos descalços
sobre arrozais de beijos
com vontade de atirar pedras
ao rio de gaivotas previsíveis.
Olhamos lerdos
o mar de pardais
a desenhar azinheiras adormecidas
no sonho cansado da lezíria.
Mas há quem diga
que trazemos a primavera
no corpo e na rosa
que queremos florir.
E que transportamos no sangue
o vinho maduro onde o nosso desejo
se quer rever e brindar.
Mas talvez sejamos apenas
campinos de touros distraídos.



Jaime Portela


quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Como num tango fandango



Como num tango fandango
do Carlos Gardel,
somos personagens fatais
a interpretar o poder
da sorte  por conquistar,
onde ensaiamos a crença
em violinos de cismas.

Como num enredo
do Martinho da Vila,
somos a plebe a sambar
num coração malandro
a enganar as pedras
indigestas dos caminhos
em pandeiretas de risos.

A tempo inteiro vadios
como num fado da Amália,
somos um povo castiço
que lava no rio a cantar
as guitarras da saudade
da vida que não levou
e que teima em não mudar.

Malditos e venturosos,
revoltados e cobardes
em estranha forma de vida,
somos areia movediça
em terra firme espalhada,
o tudo e o nada, indecisos,
de uma pátria adiada.



Jaime Portela


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O vento lá fora numa fona



O vento lá fora, numa fona,
a tentar revolver o avesso das pessoas…

E nós cá dentro
num poema de dois corpos,
a serenar a desordem crescente
da cronologia das palavras
que disparamos às cegas,
emaranhadas nos beijos
arrebatados pelo vendaval
dos vasos comunicantes do sangue.

A chuva lá fora, desalmada,
a tentar desabotoar a calçada…

E nós cá dentro
a relaxar nas lareiras do corpo,
a enxugar palavras revoltas
nas gavetas orvalhadas pelas mãos,
a desembrulhar verbos no verso
das pernas da provocação
e a abrir enxurradas no caos
das cabeças sem distância.

O vento e a chuva cá dentro,
amainados,
num abraço tântrico a crescer,
onde só os olhos se mexem
a ouvir murmúrios nas promessas
de ventos com chuva de mel.


Jaime Portela




quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Os rios que nos separam



Ontem,
num germinar ponderado,
percebemos a rigidez das muralhas
que em nós acorrentava a coragem submersa
de espelhos sonolentos,
descoloridos de tão ocultos.
Da lua,
pronto engoli a brancura
de braços abertos
ao mar que em segredo de ti se agitava,
a dissolver na areia
a espuma do rio da incerteza.
Navegante,
aparelhei caravelas para te roubar do Tejo,
madraço no balancear azul
do teu espanto de velas enfunadas
pela brisa da descoberta.
Hoje,
em atracagens suaves,
fundeio em ti o barco da liberdade
e beijo as madrugadas
a bordo das tuas mãos enluvadas de estrelas,
rubras e mutantes da saudade
que enche cacilheiros a aproximar as margens
dos rios que nos separam.



Jaime Portela


quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Quando a noite se demora



Quando a noite se demora
cresce um deserto no ar,
mole e inquinado
da estagnação a desoras,
com véus pardacentos
a criar anéis infindáveis
que de crua dolência te afogam.

Nesse forno de pretextos,
desenhas corações marialvas
em árvores abandonadas,
bebes a claridade da lua
ou cantas na Mouraria
o triste fado da Severa.

Adulta, despertas remoçada
nos afetos que te invadem,
de mansinho,
em trinados de alforria insubmissa,
e te lançam no colo nu da sedução
de pensamentos sofridos despida.

De ternura engalanada no corpo,
semeias os teus olhos multiplicada
no leito sempre aberto do meu peito,
que a chuva dos teus beijos amacia
e onde te deitas ao sol, demorada…



Jaime Portela